Thursday, December 2, 2010

Eu, que não aprendi a perder

Eu, que do alto da maturidade dos meus três anos decidi abandonar a chupeta. Minha mãe me contou que um belo dia eu acordei e disse que não queria mais, adorava, mas não queria. Eu me considerei grande demais para um costume tão infatil e joguei a minha preferida fora. Mamãe, com medo deu me arrepender de uma decisão tão drástica guardou uma chupeta reserva que serviria para me acalmar. Ela conta, com certo orgulho escondido, que eu chorei por dois dias e mordia meu dedo como que querendo suprir a falta daquele objeto indigno de mim. Muito solidária, minha mãe me ofereceu por diversas vezes a chupeta que havia guardado, mas eu sempre recusava. Ao terceiro dia eu não chorava, porque eu sou forte.

Eu, que quando criança quis brincar em um touro mecânico. Lembro do medo que senti, não me julgue, não ria... Eu tinha medo porque ele tinha um rosto e era coberto por pele de verdade, mas medo não se explica. Enchi-me de coragem e tentei subir, comecei a chorar, saí derrotada nos braços do meu pai. Na semana seguinte eu voltei ao mesmo lugar e subi no touro, mas desci antes que fosse ligado. Eu tinha muito medo, passei semanas frequentando o lugar - apoiada pelos meus pais e pelo dono do touro que começou a realmente admirar minha persistência para um objetivo tão reles - até o dia em que não só montei como não caí. Eu chorei de raiva por ter medo, mas me tornei ótima em algo que considerava difícil, porque eu não admito temer nada.

Eu, que quando fiz natação treinava com os adultos. Nadava bem demais para a minha idade, me relacionava melhor com os pais dos meus amigos e acabei ficando amiga da mãe de um garotinho um pouco mais velho do que eu. Eu fui boa por pura aptidão e fui adulta porque me considerei superior.

Eu, que fui a melhor levantadora que pude. Na segunda semana de treino entrei para o time acima da minha faixa etária e observei, procurei ser inteligente, detalhista, perfeccionista. Minha habilidade ganhou técnica, talvez tenha sido nesse momento que eu aprendi a observar tanto... Orgulho-me em dizer que quando precisei deixar a equipe meu técnico ofereceu toda e qualquer possibilidade para que eu continuasse. Eu fui uma das melhores porque eu me dediquei.

Eu, que aprendi a falar inglês praticamente sozinha. Entrei para o melhor curso para falar perfeitamente (não quiseram me aceitar por não ter a idade mínima, fui a caçula da turma mais uma vez). Terminei com honras, apesar de não ter atingido 10% de presença no último semestre. Alguns anos após a minha conclusão fui citada como exemplo de aluna, num curso para professores na mesma escola. Eu fui a melhor porque eu me dediquei ainda mais.

Eu, que montei um cubo mágico. Com um tempo total de aproximadamente dois anos entre a compra e montagem completa, com largas interrupções, eu consegui. Eu consegui porque eu não desisto.

Eu, que sempre fui caçula vou ser mais velha na faculdade. Eu ainda não passei, e só eu entendo a dor que é achar que minhas vitórias não valem mais tanto. Aluna impecável, sempre figurando entre melhores notas, melhores trabalhos. Inteligente, interessada, dedicada. Eu aprendi tudo, mas não aprendi ainda a não ter medo de fracassar, não aprendi a ser condescendente comigo. Minha vida contribuiu para essa exigência exacerbada, eu sempre consegui tudo, mesmo quando pareceu que ficaria pelo caminho...

Às vezes parece que eu estou ficando no caminho e eu preciso mesmo lembrar. Lembrar que acima do meu perfeccionismo e do meu medo de não ser incrível estão a minha dedicação, minha determinação, minha persistência.

E eu não desisto, nem perco.

3 comments:

  1. "e observei, procurei ser inteligente, detalhista, perfeccionista. e só eu entendo a dor que é achar que minhas vitórias não valem mais tanto. Aluna impecável, sempre figurando entre melhores notas, melhores trabalhos. Inteligente, interessada, dedicada. Eu aprendi tudo, mas não aprendi ainda a não ter medo de fracassar, não aprendi a ser condescendente comigo. Minha vida contribuiu para essa exigência exacerbada."

    porque eu me identifico muito com a forma e com o que você escreve. Não apenas porque gosto mas tb porque me reflete. Belo e sincero texto ;)

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  2. Thanks Yasmin, com certeza é mesmo muito sincero.
    =)

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  3. Olá Bárbara. Não sou DeMolay, mas por que a pergunta? Valeu pela visita!
    Bj

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