Sunday, August 22, 2010

Love the life you live

Quando paro por um segundo pra pensar em todos os possíveis ‘e se’ ainda tremo. Medo da impotência, da audácia (de todo mundo), medo por lembrar tão bem tudo que pensei em 60 segundos - pensei bastante.

‘Sinais’, Mari falou. Eu acredito em sinais, em premonição. Faz um mês que sonho que sou assaltada, não tinha lugar para parar o carro e paramos longe, ao tentar entrar no condomínio a porta de vidro era dura de abrir:

“Tem que puxar um pouco pra trás e depois empurrar com força”

Rua tranqüila, condomínio seguro, um vigia que trabalha armado e um lugar conhecido que dá a falsa sensação de segurança. 

Eu (atenta, quase paranóica), Mari (atenta e atrevida), Paula (a pessoa que nunca vê nada e fica fora do carro falando no celular quando todo mundo está tendo maiores cuidados). Eu ainda não decidi se foi uma combinação perfeita ou muito perigosa.

Enquanto descíamos as escadas que levam à rua, olhando através do vidro que ainda nos separava do lado de fora observei a casa da frente:

“Todo dia tem uma festa nessa casa”

Eu vi a festa e nem pensei em olhar pra rua.

Descemos, fomos andando em direção ao carro. Ouvi um barulho de pneu de bicicleta cantando, parei, fiquei olhando, vi um homem e na mesma hora sabia que não era coisa boa. Mari parou também, alguns passos pequenos enquanto pensava o que fazer... 

Mari virou e dava passos curtos de volta, eu olhava o homem nos olhos e ele disse alguma coisa, eu estava tão concentrada em decidir o que fazer que não ouvi nada, só “celular”. Olhei Mari, andando quase parando, Paula lá na frente alheia a tudo. Dei um passo e alcancei Mari.

Caminhei ao seu lado, ela muito mais nervosa do que eu perguntou: 

“O que a gente vai fazer?”

“Não sei ainda...”

Exatamente nessa hora Paula passou correndo ao nosso lado. Pensei – fudeu. Falei – CORRE.

Correr nunca foi tão fácil, mas também nunca tive tanto medo de levar um tiro, de olhar pra trás e ver que ele estava armado e perto de mim, pensar o que ele faria.

Na porta de vidro as três gritando pro porteiro abrir, porta travada. Mari tentando segurar Paula pra “puxar depois empurrar” e eu que literalmente me joguei contra a porta.

Você entende o que é adrenalina? É não pensar e fazer. É correr, gritar o suficiente pra rua inteira se assustar, é se jogar contra uma porta que não abre sem medo de se quebrar, e é não olhar pra trás, nunca.

Engraçado é que cada uma estava vivendo um momento, e só depois conseguimos juntar tudo. Mari não lembra sobre ter perguntado o que fazer; Paula não viu nada, o homem gritou para ela não correr, e quando nos viu andando de volta ela correu; eu, quando vi uma de nós correr pensei que ele poderia estar logo atrás, então não me restou muito a não ser correr, não lembro ter dito, mas Mari disse que eu mandei ela correr também. Mari voltou porque estava com a chave do carro na mão, eu voltei porque não tinha ninguém perto e seríamos uma presa fácil para mais do que um simples assalto. Paula, bom... Paula não pensou, ela correu.

Mesmo depois de entrar no condomínio continuamos correndo até o sofá da recepção, as três sentaram, tremendo muito começamos a juntar os pedaços da história. Ninguém viu uma arma (mas ninguém ficou pra ver também), todas pensaram enquanto corriam e todas pensaram em agradecer a Deus, mesmo não sendo praticantes de religião nenhuma, e todas passaram o resto da noite achando tudo muito bom e a vida muito boa.

Sunday, August 1, 2010

The look

As palavras que ferem são tão mais sutis que esses olhares, e se me perguntam de que são eu prefiro não responder. Não pensar. Não saber o que traduzem.

Dói. Dói porque chega uma hora que eu inevitavelmente me anulo e me reduzo ao papel que fui feita para ocupar. Educada, impassível. Um sorriso no rosto, e os problemas da porta de casa para dentro. Nem devia doer tanto, mas já o fiz por tão longo tempo que um segundo a mais significa tortura por perder mais um pedaço, por lembrar quantos outros foram deixados no caminho cada vez que me submeti a qualquer cordialidade que não desejei de fato, todas as vezes que fui um 'eu' disfarçado de 'todo mundo'.

Eu penso que nota, mas não. As mágoas são minhas e são pequenas aos olhos de quem não vê com a sensibilidade que eu sinto. O que eu vejo? Um mundo meio embaçado pelas minhas lágrimas com escassa empatia e alguns bons amigos.

Mostra-se tão preocupada que o novo olhar lançado quase me faz sentir culpada, me pergunta, tenta entender, eu tento respirar porque respirar é tudo que eu preciso - além de um abraço, talvez.

Eu sei que é hora de ser adulta, mas só queria não precisar. 

Como pode ser dificil entender quando tudo está sendo visto, quando eu estou tão indefesa... Como pode ser necessária uma explicação? E como pode ser mais cruel depois que falo? Como pode dizer que sou egoísta?

Acha que me faz um grande favor em calar, mas os olhares dizem tudo e quando acuso de silenciosa condenação perde o olhar, e a fala.