Wednesday, January 27, 2010

Clown


Eu tenho medo do escuro e dos palhaços. Medo de não poder ver os que estão ao redor e ser vítima fácil de um homem com sorriso vermelho-falso pintado na boca.

Sempre foram um problema os meus medos e o pânico anômalo que por vezes me dominava - e ainda hoje perturba. Não fui a criança que corria para longe dos pais de encontro aos personagens fantasiados no parque; não ri de nenhum palhaço e nunca, jamais, sentei no colo do Papai Noel (este ainda me causa terrível incomodo), nem um presente no mundo valeria o esforço.

Mesmo em minha completa inocência infantil eu soube que eram perigosos os homens mascarados por tinta e adereços. Por que se escondiam? E que personalidade estranha assumiam quando travestidos.

Ao meu aniversário de seis anos, minha mãe usou toda a sua psicologia e pediu que uma grande amiga se vestisse de palhaço. Fez-me vê-la se vestir e pintar até que ficasse irreconhecível... Não chorei pela primeira vez, mas não gostei e fiz careta em todas as fotos.

Quando os meus anos tornaram injustificável o meu medo passei a detestar. Fui arrastada ao circo e gostei. Gostei de todas as atrações, amei o circo. Odiei o Palhaço.

Por que se fazia estúpido? Por que fingia tão caricatamente? POR QUE AS PESSOAS RIAM?

Eu superei o pânico dos palhaços tão logo entendi ser um trabalho, mas no lugar do pânico ficou um sentimento ruim de pena pelo ridículo ao qual eram expostos

Não, eu não gostei dos trapalhões.

A personalidade densa que cultivei não só sentia pena do alheio, sentia-se ridicularizada. Eu confundi o apelo por me fazer rir com o motivo que me faria idiota. Eu não gosto de demonstrações afetadas de sentimentos (ainda não gosto), mas eu confundi a gargalhada com afetação e foi um erro.

Eu achei que todo palhaço fosse bobo e um dia meu pai me ensinou o contrário. Vestiu um terno bem cortado e por cima uma roupa de palhaço, maquiou-se e colocou o nariz para performar “Sonhos de um palhaço”. Ao longo da música tirava a peruca, o nariz e a maquiagem, lenta e tristemente tirou a roupa por ultimo, revelando o terno e um olhar sério.A música acabou. Papai era o palhaço, era o homem cheio de responsabilidades sufocado pela gravata apertada, que por alguns instantes foi palhaço.

Eu não sei se o palhaço se faz alegre porque é triste, mas ele pinta o rosto pra viver.

Wednesday, January 6, 2010

Eu tenho um problema psicológico seríssimo

Eu clareei radicalmente meu cabelo para um tom da moda, eu tenho duas tatuagens que não aparecem e passo uma semana sem sair de casa. Por falta de experiência eu nunca pensei que era tudo consequência desse dito problema que me faz querer fazer mudanças radicais e gostar delas. 

Realmente me sentir feliz por mudar o cabelo e ter uma estética diferenciada (achar bonito uma bolinha brilhante no nariz) parecem ser os sintomas principais que levaram ao meu diagnóstico. O problema consiste ainda em não gostar de dita música popular, preferindo um chorinho a um forró universitário, achar uma rave bem organizada um lugar agradável e ficar em casa nas minhas férias - se a ocasião, no entanto, for uma festa ou uma ida a um bar, o Problema passa misteriosamente a me manter fora de casa até tarde configurando um quadro de exagero característico. 

É, eu tenho um problema muito sério, numa cidade muito pequena com gente muito moderna, de um jeito muito estranho, dando muita opinião sobre muita coisa.